A minha catarse

A catarse precisa de ser feita, sem qualquer sombra de dúvida, sempre que exista uma razão para isso. Não é um sinal de fraqueza nem de perda de controlo; não tem nada de dramático.
Ao longo da vida passamos por fases que nos desafiam e que nos obrigam a parar, a reflectir ou, simplesmente, a tomar a decisão tão esperada, como é o meu caso: a saída da vida profissional.
Nos últimos tempos, tenho percebido isso de forma ainda mais clara.
A entrada na reforma, por exemplo, é um desses momentos que parece ter tudo para ser leve e libertador, mas nem sempre é assim. De um dia para o outro, mudam as rotinas, as referências, o propósito diário. Ficam espaços vazios que antes estavam preenchidos, surgem dúvidas, inquietações, até medos que nunca imaginámos sentir.
Os ditos "amigos" deixam de ligar, a vida segue e segue para os dois lados. Uns continuam a trabalhar e outros não: já o fizeram.
E é precisamente aí, nesse desnorte discreto, nessa solidão social e por vezes familiar, que a catarse pode tornar-se urgente e indispensável.
Mas afinal, qual é o tempo certo para superar uma dor, um receio, uma perda ou este novo silêncio que a reforma traz?
A verdade é simples: as emoções não têm tempo certo. Não seguem horários nem avisam antes de chegar. Invadem-nos quando querem, despoletando lembranças e vulnerabilidades que, por vezes, achávamos já ter resolvido.
E nós, que vivemos numa sociedade ultracompetitiva, rapidez, produtividade, raramente nos permitimos parar. Dizem-nos para avançar sempre, sem hesitar, como se sentir fosse um entrave ao progresso. Mas não é.
Aliás, é precisamente nesse momento de pausa, quando finalmente admitimos o que se passa dentro de nós, que a verdadeira transformação começa.
A catarse, na minha opinião, nasce aí: na coragem de olhar para dentro, de reconhecer a dor, o medo, a tristeza, a confusão e de lhe dar voz.
E, no fim, percebemos sempre o mesmo: cada emoção libertada é um passo em direcção a uma versão mais leve, mais consciente e mais inteira de nós mesmos. A reforma, com todos os seus desafios silenciosos, pode muito bem ser o início desse caminho, não um fim, mas uma nova forma de nos reencontrarmos.
E é por isso que eu escrevo, porque escrever é libertador, assim como ver o mar, as gaivotas, sei lá mais o quê.
O que importa é que cada um descubra a melhor forma de ser feliz.